Manifesto – Clube do Bordado – Coração nas mãos, e mãos ocupadas

Um manifesto do Clube do Bordado pelo uso das técnicas manuais para criar arte com
linha e agulha, desatar a criatividade e se expressar – por Amanda Zacarkim, do Clube do Bordado*

Tudo começa num ponto. Com linha e agulha, de dentro para fora, imaginamos a vida e vamos preenchendo o tempo com alma. Enquanto as mãos trabalham, o pensamento corre solto e por vezes reflete as inseguranças de todo dia – Será que escolhi as cores certas? Será que está ficando ‘perfeito?’. Como se fosse espelho, nos reconhecemos no avesso cheio de linhas aparentes, nós para serem desatados, arremates que deixamos passar. E nesse ritmo interno, quando o tempo abandona os ponteiros e se faz real, abrimos espaço para sermos nós mesmas. A vida tem muito dos momentos de um trabalho feito à mão. Bordar, costurar, tricotar, pintar, crochetar. Até pouco tempo atrás, esses verbos faziam parte da cartilha da mulher prendada – nem sempre emancipada – e eram por vezes considerados inferiores por não exigirem erudição.

Como mulher do meu tempo, reneguei as manualidades por anos em função da tecnologia e da ‘vida corrida’. E num desses vazios de excesso de informação, ao olhar todos os dias para telas e mais telas, vi que estava longe de mim mesma, apenas assistindo, dando likes passivamente. Até que alguns desses likes se materializaram, e pelo Instagram formamos um grupo de seis amigas interessadas em bordar. Desde então somos um coletivo que usa bordado, aquarela e outras técnicas manuais para levantar discussões a partir de assuntos íntimos, compartilhar conhecimento e vasculhar a criatividade. Desde esse começo despretensioso damos apoio umas às outras para mudanças de todos os tipos: deixar de lado a insegurança ao desenhar, propor ideias para se livrar de um emprego massante, compartilhar dúvidas existenciais, submeter o ego aos pitacos das amigas, fazer fofocas sexuais, deixar aquele ex para lá, acabar com a competição entre as mulheres e exercitar o amor-próprio. Nos trabalhos com linha e agulha começamos a falar sobre sexo, questionamos tipos e formatos de corpos, gêneros e tabus femininos. Portanto, se para nós o bordado marcou o início de novas amizades e a expressão de nossa criatividade, por que não incentivar mais mulheres, mais coletivos, questões ainda mais plurais? Fomos entendendo que essa energia criativa e feminina sempre esteve circulando por aí – e que o momento de deixá-la aflorar é agora, não esquecida na infância nem protelada para a aposentadoria. Em uma pesquisa recente pelas nossas redes sociais, mais da metade das mulheres afirmaram que já superaram picos de ansiedade ou depressões profundas com a ajuda dos trabalhos feitos à mão. Uma seguidora conta, por exemplo, que sofreu de uma síndrome e ficou meses sem os movimentos das pernas, passando o tempo apenas sentada ou deitada. Ela aprendeu a bordar e conseguiu com isso relaxar e dar um nó no tempo.

Outra mulher relatou que após perder um familiar e ser demitida do emprego recorreu ao bordado e ao desenho, que a ajudaram a não se deixar abater pelos acontecimentos. Além da função terapêutica e da ocasional ajuda econômica, fazer algo com as mãos abre espaço à expressão pessoal. “A princípio nunca achei que seria capaz de fazer trabalhos manuais, que exigem tanta paciência. Começar nesse mundo foi de grande valor para que eu me descobrisse, me conhecesse!”, relata mais uma bordadeira. E “compartilhar isso é uma forma de motivar outras pessoas que passam pelos mesmos medos com seus talentos e não sabem como se expressar”, entrega outra. Relatos como esses podem parecer banais em um mundo voltado para a alta performance, para a mulher que dá conta de tudo à sua volta mas acaba não tendo tempo para si mesma. Aliás, vale lembrar que a sabedoria do feminino sempre esteve ligada à intimidade e à intuição – e nem sempre respeitada justamente por seu caráter subjetivo.

Essa forma de usar as mãos para criar, meditar, amar e curar é o que está na essência do que acreditamos e queremos compartilhar com o Clube do Bordado. Em momentos de crise existencial, olhar para dentro e ficar consigo mesma. Em momentos de luto, respeitar a dor. Presentear com algo feito por você mesma como forma de gratidão. Criar algo para superar as próprias inseguranças ou expectativas, para agarrar o tempo, para testar paciência, para fazer mágica com as mãos, para expandir o lado lúdico, para dizer quem é e a que veio. Cada vez mais, queremos criar caminhos para que todas se expressem e se empoderem criativamente. Usar a arte para dialogar e, a partir das origens de cada uma, mostrar nossas particularidades de mãos cheias, com o coração também ali, orgulhosamente à mostra. *O Clube do Bordado é um coletivo de arte feito pelas amigas Camila Lopes, Laís Souza, Marina Dini, Amanda Zacarkim, Renata Dania e Vanessa Israel desde 2013. Juntas, criam ilustrações e bordados, ministram cursos e realizam encontros para incentivar a expressão pessoal por meio de técnicas manuais.is.